Eu não vou lamentar a "tragédia de Santa Maria". Eu não me sinto comovida com isso, não estou prestando apoio, não estou de luto, nada semelhante. Não, não é que eu ache "bem feito" ou engraçado... É bem simples: não conheço nenhuma das pessoas envolvidas (as que morreram, amigos, familiares, colegas de faculdade/trabalho), nem sequer sabia da existência delas ou até mesmo de Santa Maria. E aposto que você também não. Até a manhã de hoje, nada disso era importante pra mim e pra maioria das pessoas que eu conheço.
Não há nenhuma mudança prática na minha vida, não representa nada no meu cotidiano. Ou melhor, representa um pouco menos do que as milhares de tragédias que acontecem bem aqui no meu nariz, todos os dias, e que os jornais não mostram (talvez por não venderem tanto quanto a do momento). Você mesmo pode escolher um bom exemplo, embora venham vários excelentes à minha mente: as remoções irregulares de moradores pra dar lugar aos investimentos pré Copa, a internação compulsória de usuários de crack e moradores de rua (na tentativa de "limpar" a cidade, ao invés de sanar o problema de uma forma digamos, menos fascista), os conflitos por disputa de terra no campo (com os quais, aliás, a mídia nunca quis demonstrar com a mesma eficiência e rapidez com a qual eu vejo mergulhar num caso banal de jovens de classe média que morreram, assim como milhões morrem todos os dias no mundo todo)...
É, as pessoas morrem. Surpreendente, não? Mais surpreendente ainda (e talvez a gente nunca pare pra pensar nisso) é que nem todas elas têm a chance de morrer durante a tranquilidade do sono, sem dor e agonia. Algumas morrem queimadas, com tiro, suicídio, overdose, atropelamento, etc. E vão continuar morrendo, porque as coisas são assim. Só que nem todos esses casos diários têm cobertura internacional, com boletins ao vivo e detalhados, com todas essas baboseiras típicas de shownalismo babaca pra vender tragédia como se fosse anestésico.
A dor e perda alheias rendem bons frutos no horrorshow que a imprensa (não apenas no Brasil) promove. Eu não compro lágrimas de holofote e acho que a verdadeira tragédia é que alguém o faça.