quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

sobre o mito de Sísifo

repito diariamente
esse chacoalhar vão
de matéria
macaqueando o ser a esmo
por preguiça de deixar de sê-lo
acomodei-me a existir
(não à existência)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

mosaico de se-r

caleidoscópio respirado
composição do que tem
ao redor

como mil olhos de uma mosca
refração da partícula apassivadora
minhoca não tem rabo

nem cabeça

sábado, 21 de dezembro de 2013

Liberdade ofende?

Hoje, ao voltar pra casa, eu tentava avaliar se o Toplessaço teve saldo positivo ou não. Ainda não sanei meus questionamentos, na verdade.
Muito mais curiosos e fotógrafos do que manifestantes, a minha super exposição, a explicação que vou ter de repetir inúmeras vezes, a reprovação de muitos, dentre outros pontos desagradáveis, ainda me incomodam...
É óbvio que há ressalvas a serem feitas sobre o evento, mas como a Maria disse, não critico mulher alguma que tenha ficado com seu sutiã. Eu decidi tirá-lo, mas compreendo quem não pudesse - pela repercussão - ou se sentisse acuada.
Confesso que ao perceber o clima de circo - no pior sentido de espetáculo mesmo -  que havia tomado a praia, hesitei. Porém, ao ver que algumas poucas mulheres levavam a causa adiante, me senti quase na obrigação de fazer o mesmo. Era uma questão de honra, mais do que de coragem. O meu peito não é obsceno, tenho de dizer. Esteja ele exposto em conjunto com outros tantos ou apenas com as poucas que tiveram fibra pra se despir.
Em um primeiro momento, me senti violentada. Não acho razoável andar com uma horda de mais de 100 pessoas ao meu redor, ávidas por qualquer registro de uma imagem minha. Não sou famosa, não fiz isso na tentativa de chamar a atenção por um motivo banal. E é aí que eu talvez tenha feito algo válido.
Sei que a apropriação midiática feita do ocorrido é fetichista, manipuladora. Estou - eu, branca, magra, loira, de cabelo liso, jovem - exposta em muito mais sites do que as senhoras que faziam o mesmo, logo atrás, bem mais transgressoras ao meu ver (e que lindo!). Mas não podia deixar de lado o meu grito, por mais que ele chegue de forma equivocada em certos ouvidos.
Quero agradecer o apoio de quem compreendeu o gesto, as mulheres e homens que participaram do Toplessaço e a enorme força da Maria e dos meninos que estavam comigo. Entendo a discordância de alguns e acredito que é através do debate (e não do ataque intolerante) que se dá a construção do mundo que eu quero ver.
E que venham mais chances de mostrar que temos direito a nós mesmxs!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sobre Aninhar-se

pra quê essa gana de prender
se não é assim que se tem?
deixa livre o querer
e vem quando for

pode até ser que não esteja mais
posto que não se dobra muitas vezes
mas o importante é o voo
a ausência é detalhe

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

laje

favela acesa à noite
barracos cintilantes
casebres incandescentes
em que menino de pé descalço
e o chinelo velho
que arrasta no pé da mãe
fazem o som

cravejados no morro
cada luzinha, um zé
um Amarildo
que ganha esculacho de graça
porque o senhor não admite
que o preto saia da senzala
(embora não possa evitar o samba)

é carnaval no morro
e as luzes da favela
tocam pandeiro

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

ensaio sobre a esquiva

hasteia o mais alto que pode
a bandeira branca
nas mãos trêmulas

mas como fazer
pra toda fúria reconhecer
que ele se retira?
se entorta todo
e por mais agitado que esteja
aquele pano já não tão alvo, surrado,
é a negativa pro abate mútuo

mas, não reconhecido
lá vai ele outra vez
soldado forçado
tanque, capacete, coturno, fuzil
farda e toda tralha de servir
não lhe serve de nada

mais vale deitar nas trincheiras
e fingir que os traçantes são estrelas cadentes
bem rente aos olhos frígidos

eles ignoram a recusa
ele ignora a cólera
à espera do desejo lhe atravessar o peito
porque só projétil liberta da peleja