segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Desventuras de uma menina que não cabia dentro de si

Guilhotina era uma moça muito doce,
que de tanto amar demais,
noite dessas precisou devorar
o coração de seus pais.

O papai, Dr. Filósofo,
como sempre, muito sabido,
dizia o tempo todo coisas muito profundas
como qualquer vestido de baile.

A mamãe morreu logo no parto,
não aguentou o nascimento do bebê,
posto que era diabética.

Já a madrasta, Dona Maria Prolixa,
mulher de muito poucas palavras
e de uma boquinha miúda,
era atleta desde pequena.
Praticava hipismo e sempre vencia,
chegava ao pódio com seu unicórnio de um olho só.

Depois do crime, Guilhotina foi levada ao médico.
- Precisa de uma consulta com o doutor,
não é assim normal, isso de ter 3 corações.

E o doutor abismado, ao ver o estado da menina,
tratou de fazer todos os exames.
Enfiou-lhe tubos, colheu amostras, testou tudo o que havia,
inclusive aritmética e gramática.
(pro azar de Guilhotina, que desprevenida,
não providenciou cola para as provas)

Alguns dias depois, a moça foi à clínica.
Quando o homem da saúde foi lhe dar o veredito,
a menina já estava desolada.
Esperava mal ouvir e ter uma morte súbita,
mas surpreendeu-se ao escutar
que lhe restavam poucos mil anos de vida.

Mas ainda desajustada, nem um pouco satisfeita,
resolveu procurar uma rezadeira, bruxa ou cartomante.
Se não era doença, na certa era mal olhado, praga ou maldição,
disseram com convicção.

Disso tudo e mais um pouco, entendia uma senhora,
que lá do alto da montanha, com verruga no nariz,
só não dava cabo das próprias mazelas.
Mas rapidamente ficou clara a solução
e a cura fez-se evidente aos olhos das duas mulheres
através da bola de cristal.

"Com as comigo-ninguém-pode do teu jardim
tu deves fazer um chá.
3x por semana, a partir da lua cheia,
tomar sempre com a mão direita."
foi a receita seguida à risca.

Mas dia após dia, nada da poção adiantar.
De modo que Guilhotina abandonou a fórmula
e voltou a procurar seus tratamentos.

Ao final daquele mês,
numa noite sem lua,
(como quase todas na cidade dela)
a menina foi abduzida.

Deitada na sua cama,
foi levada por homenzinhos.
Vários deles, bem pequenos, mais pareciam formiguinhas.
Estuda daqui, olha dali, examina acolá
e já haviam lhe observado o avesso
e até mesmo os confins do seu âmago.

Quando devolveram a mal emendada para casa,
talvez por tê-la remontado errado,
nela já não havia defeito algum.
Soaram mil trezentas e quarenta e duas trombetas dodecafônicas
pra se despedir
e Guilhotina comemorou soltando um balão de gás hélio.

Mas depois pensou bem e deu por si:
tinha perdido afinal
aquilo que era só seu.
Por culpa daquela saga,
ao longo da torta jornada,
a heroína não era mais ela.
Não passava agora de mais uma garota,
uma peça que passou a se encaixar.
Nada mais tinha de especial.

Virou por fim um arremedo de si mesma,
converteu em pó as lembranças de si própria
e dissolveu as lágrimas num cantil de uísque com bastante rivotril.

domingo, 14 de outubro de 2012

Café da Manhã

Acordou. Olhou pro lado. Cabelos espalhados pelo travesseiro, estava ela encolhida, lento abrir de olhos. Fitaram-se uns instantes bem breves. Ele de cima, o cotovelo fincado na cama, a cabeça apoiada na mão; ela deitada, os dedos na frente dos lábios e do nariz (na tentativa de disfarçar a vergonha de quem é observado dormindo).
- Bom dia, você tá linda... - sorriu pra ela.
- Se você gosta de cara amassada e cabelo bagunçado, é maravilhoso... -suspirou sonolenta - Bom dia...
Ele se inclinou, deu um beijo de leve e começou um carinho no cabelo dela.
- Cê quer tomar café?
- Aaaaaaaah, pode ser daqui a pouco?
- Tudo bem... Só me avisar que eu vou lá, tá bom?
- Tá bom... Agora vem aqui do meu lado? Tá frio pra caramba, me esquenta?
- Seu nariz deve estar gelado. Encosta aqui pra eu esquentar.
E riu quando ela encostou a ponta do nariz nas bochechas dele.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Une Fille-Garçon et un Amour de la Plage (24 heures)

*Uma Menina-Menino e um Amor de Praia (24 horas)

Esses dias eu me apaixonei por acaso, por uma menina. É, mas não é desses amores que a gente acha que é pra vida toda. É um amor de noite quente, de ficar conversando besteira até tarde, de ficar com frio na barriga pra ver a pessoa logo. Não é amor de querer a pessoa só pra você e se guardar só pra ela, ou de ficar triste se ela não te quiser do mesmo jeito.
Não, não me atrevo a dizer que "não é amor de verdade". Quem define amor "de verdade" ou "de mentira" pelo tempo que ele dura, não merece sentir. Mais vale o efêmero verdadeiro do que uma eternidade de mentira. Fora que uma ilusão assim, um encantamento tão singelo quanto um sorriso tímido, tem toda uma poesia que eu nem sequer ouso descartar. Pelo contrário, coleciono.
Essas é que são as minhas borboletinhas no estômago.

"une fille-garçon
je suis sur la plage
vague par vague
ce qui n'est pas"

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*uma menina-menino
que me tem na praia
onda por onda
aquilo que não é

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Aborto de Mim

trompas de falópio
ah! como eu as odeio!
amaldiçoo,
expurgo,
expulso

morto seja o meu fruto
e seco o meu ventre
já que é de tapa seco
que a prole e a mãe se criam

não quero maternidade que sangra
não quero amamentar pó de desterro
não quero criar culpa de novo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um acaso achado

Tempos atrás, remexendo nas coisas antigas do meu pai, achei um monte de cartas (supostamente trocadas entre ele e algumas namoradas, durante a juventude). Li tudo, com a sensação de que por meio daquelas cartas eu fosse ficar sabendo mais sobre meu pai, como se elas fossem me fazer conhecer mais um pouquinho dele. E talvez tenham feito. Ou tenham me feito ver um pouco dele naquela época, em mim hoje.
Era quase possível ver alguém parecido com o meu pai - ou a figura que eu imagino que tenha sido o meu pai jovem, com seus vinte e poucos anos - lendo/escrevendo todas as cartas, vivenciando tudo o que estava dito nelas. As palavras falavam diretamente comigo. Não com as destinatárias, que eu nunca conheci.
E com essas cartas, criei um personagem só meu (que não é meu pai). Ele também escreve cartas pra uma menina que mora longe, mas num contexto próprio. Eu poderia gastar páginas e páginas falando sobre ele, mas prefiro deixar que ele fale por si mesmo, na primeira carta redigida desde que Rebeca viajou. (:

Pra Rebeca


Rio, 16-10-1976

Oi Rebeca,
Como cê tá? Como cê tem passado?
Soube que cê tem estudado tanto que até parece cientista em projeto secreto da NASA. Não sai de casa nem pra ver se tá chovendo, comprar pão, essas coisas. Mas é issaí: vestibular é uma barrinha mesmo, tem que meter bronca. Ainda mais pra Medicina.
Tá na cara que eu não to escrevendo só pra dar força pr'ocê nas provas, né? Eu quero é saber de você, o que você tem passado, no que cê tem queimado os neurônios, o que tá sentindo... Afinal, a gente não pode mais se ver, né!
Cê nunca mais me mandou carta, postal... Telefonema, então, ish! faz tempo, viu. Eu fiquei com saudades. É, saudades. E também um pouco preocupado com você, com esse teu ritmo biruta de estudo.
Sabe o que é? É como um atleta: o cara se prepara pra uma competição, daí ele passa 2 meses (digamos) fazendo exercícios, ginásticas... Tudo pra pegar físico, fôlego e técnica, ajeitando os músculos e tudo o mais (psicologicamente também). Só que esse treinamento tá puxado demais, muito intenso, arriscando dobrar o fio.
Sabe o que é "dobrar o fio", nega? É o cara passar do ápice do rendimento antes da hora, porque o rendimento vai crescendo até um determinado momento e depois cai. Se cai antes do que devia, o atleta perde a competição, por mais bem preparado que esteja. Talvez até por isso: por se preparar demais. Se ao invés disso, o cara atinge um certo nível e depois cuida de manter a forma, sem aumentar em demasia a intensidade dos exercícios, é capaz de entrar na competição com força total e amplas possibilidades.
Basta dosar.
Assim é nos estudos também. Toma cuidado, meu bem. De qualquer maneira, confio em você. Mas acho que uma higiene mental às vezes é necessária. Levar o pensamento pr'outras áreas, desacelerar. Não há quem aguente esse teu 220 o ano inteiro. Assim você acaba sucumbindo, nega!
Rebeca, depois te escrevo mais. Agora tenho que ir dormir, pra ver se acordo cedo amanhã. To cheio de coisas pra te contar.
Beijo!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Morenice com Sabor de Vento

Um dia eu conheci uma morena. Mas conheci devagar, que essa nega é que nem botão de flor preguiçosa: vai se abrindo pouco a pouco, até desabrochar. E ficamos assim, amigas. Essa morena entrou na minha vida e sinto falta dela agora.
Saudade, sim. Eu, que falo tanto de mim, que nunca elogio ninguém, que nunca olho pro outro... Tenho pensado nela. Agora que ela tá por aí, ao sabor do vento, eu tenho que me contentar com a parte dela que me sobra na cabeça.
E sobra bastante coisa. Sobra a fala mansinha, o riso de menina, as mãos delicadas, a indecisão (que combinava muito com a minha, aliás), o olhar calmo e a boca com sabor de sol.
Mas essa morena não é minha, pra eu poder segurar... Essa morena não é de ninguém. Essa morena é de todo mundo. É do mundo inteiro. Ela é um passarinho que bateu asas e deixou o pio aqui, num eco. Passarinho de gaiola, morre, nêga. Você que me ensinou.
Antes dela resolver ir buscar não-sei-o-quê (como eu, acho que ela procura tudo, só não sabe o que perdeu) lá fora no mundo, a gente aprontou muita coisa. E eu lembro de cada uma, embora a memória dela seja bem ruim. Mas essas histórias são só minhas. Se eu contar, elas se perdem. E eu, que já não tenho cá a morena, corro o risco de ficar sem sequer a ilusão dela. Não. Deixo tudo bem guardado. Não preso, que nada dessa morena pode estar longe da liberdade. Mas guardado, pronto pra quando a andarilha resolver voltar.
Ah, ela volta... Tenho certeza que um dia ela volta. Não precisa ser pra sempre, que pra sempre é tempo demais pra quem quer dar a volta ao mundo.
Quando ela me disse que ia partir pela primeira vez, era carnaval. Eu fiquei feliz por ela, porque era uma coragem que ela sabia que eu não tinha, embora a vontade fosse a mesma. Mas confesso que chorei baixinho, quando à noite, pensei que ela não ia mais estar por perto.
Mas aprendi a ver essa menina em tudo que é coisa. Aprendi a lembrar fácil de um dia que ela dormiu que nem criança, coma cabeça sobre o meu peito. Uma coisa tão forte que me fez chorar. É claro que ela não percebeu. Lembrança boa é essa que a gente tem escondida. Essa eu to compartilhando, mais com ela do que com qualquer outro, que é pra ver se ela tenta se lembrar desse dia.
Thaiane, eu te amo. Não assim, um amor apertado, desses que não se deixa respirar. Ao contrário. Um amor que deixa aberto espaço pra você abrir as asas e voar pra longe, e que vai estar aqui pra quando você resolver voltar e dar o ar da morenice. Um amor que nunca se importou de ser compartilhado, porque já nasceu assim, multiplicado ao invés de dividido.
Saudades do teu abraço, morena.