Guilhotina era uma moça muito doce,
que de tanto amar demais,
noite dessas precisou devorar
o coração de seus pais.
O papai, Dr. Filósofo,
como sempre, muito sabido,
dizia o tempo todo coisas muito profundas
como qualquer vestido de baile.
A mamãe morreu logo no parto,
não aguentou o nascimento do bebê,
posto que era diabética.
Já a madrasta, Dona Maria Prolixa,
mulher de muito poucas palavras
e de uma boquinha miúda,
era atleta desde pequena.
Praticava hipismo e sempre vencia,
chegava ao pódio com seu unicórnio de um olho só.
Depois do crime, Guilhotina foi levada ao médico.
- Precisa de uma consulta com o doutor,
não é assim normal, isso de ter 3 corações.
E o doutor abismado, ao ver o estado da menina,
tratou de fazer todos os exames.
Enfiou-lhe tubos, colheu amostras, testou tudo o que havia,
inclusive aritmética e gramática.
(pro azar de Guilhotina, que desprevenida,
(pro azar de Guilhotina, que desprevenida,
não providenciou cola para as provas)
Alguns dias depois, a moça foi à clínica.
Quando o homem da saúde foi lhe dar o veredito,
Quando o homem da saúde foi lhe dar o veredito,
a menina já estava desolada.
Esperava mal ouvir e ter uma morte súbita,
Esperava mal ouvir e ter uma morte súbita,
mas surpreendeu-se ao escutar
que lhe restavam poucos mil anos de vida.
Mas ainda desajustada, nem um pouco satisfeita,
resolveu procurar uma rezadeira, bruxa ou cartomante.
Se não era doença, na certa era mal olhado, praga ou maldição,
Se não era doença, na certa era mal olhado, praga ou maldição,
disseram com convicção.
Disso tudo e mais um pouco, entendia uma senhora,
que lá do alto da montanha, com verruga no nariz,
só não dava cabo das próprias mazelas.
Mas rapidamente ficou clara a solução
e a cura fez-se evidente aos olhos das duas mulheres
através da bola de cristal.
"Com as comigo-ninguém-pode do teu jardim
tu deves fazer um chá.
3x por semana, a partir da lua cheia,
3x por semana, a partir da lua cheia,
tomar sempre com a mão direita."
foi a receita seguida à risca.
Mas dia após dia, nada da poção adiantar.
De modo que Guilhotina abandonou a fórmula
e voltou a procurar seus tratamentos.
Ao final daquele mês,
numa noite sem lua,
(como quase todas na cidade dela)
a menina foi abduzida.
Deitada na sua cama,
foi levada por homenzinhos.
Vários deles, bem pequenos, mais pareciam formiguinhas.
Estuda daqui, olha dali, examina acolá
e já haviam lhe observado o avesso
e até mesmo os confins do seu âmago.
Quando devolveram a mal emendada para casa,
talvez por tê-la remontado errado,
nela já não havia defeito algum.
Soaram mil trezentas e quarenta e duas trombetas dodecafônicas
pra se despedir
e Guilhotina comemorou soltando um balão de gás hélio.
Mas depois pensou bem e deu por si:
tinha perdido afinal
aquilo que era só seu.
Por culpa daquela saga,
ao longo da torta jornada,
a heroína não era mais ela.
Não passava agora de mais uma garota,
uma peça que passou a se encaixar.
Nada mais tinha de especial.
Virou por fim um arremedo de si mesma,
converteu em pó as lembranças de si própria
e dissolveu as lágrimas num cantil de uísque com bastante rivotril.