caleidoscópio respirado
composição do que tem
ao redor
como mil olhos de uma mosca
refração da partícula apassivadora
minhoca não tem rabo
nem cabeça
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
sábado, 21 de dezembro de 2013
Liberdade ofende?
Hoje, ao voltar pra casa, eu tentava avaliar se o Toplessaço teve saldo positivo ou não. Ainda não sanei meus questionamentos, na verdade.
Muito mais curiosos e fotógrafos do que manifestantes, a minha super exposição, a explicação que vou ter de repetir inúmeras vezes, a reprovação de muitos, dentre outros pontos desagradáveis, ainda me incomodam...
É óbvio que há ressalvas a serem feitas sobre o evento, mas como a Maria disse, não critico mulher alguma que tenha ficado com seu sutiã. Eu decidi tirá-lo, mas compreendo quem não pudesse - pela repercussão - ou se sentisse acuada.
Confesso que ao perceber o clima de circo - no pior sentido de espetáculo mesmo - que havia tomado a praia, hesitei. Porém, ao ver que algumas poucas mulheres levavam a causa adiante, me senti quase na obrigação de fazer o mesmo. Era uma questão de honra, mais do que de coragem. O meu peito não é obsceno, tenho de dizer. Esteja ele exposto em conjunto com outros tantos ou apenas com as poucas que tiveram fibra pra se despir.
Em um primeiro momento, me senti violentada. Não acho razoável andar com uma horda de mais de 100 pessoas ao meu redor, ávidas por qualquer registro de uma imagem minha. Não sou famosa, não fiz isso na tentativa de chamar a atenção por um motivo banal. E é aí que eu talvez tenha feito algo válido.
Sei que a apropriação midiática feita do ocorrido é fetichista, manipuladora. Estou - eu, branca, magra, loira, de cabelo liso, jovem - exposta em muito mais sites do que as senhoras que faziam o mesmo, logo atrás, bem mais transgressoras ao meu ver (e que lindo!). Mas não podia deixar de lado o meu grito, por mais que ele chegue de forma equivocada em certos ouvidos.
Quero agradecer o apoio de quem compreendeu o gesto, as mulheres e homens que participaram do Toplessaço e a enorme força da Maria e dos meninos que estavam comigo. Entendo a discordância de alguns e acredito que é através do debate (e não do ataque intolerante) que se dá a construção do mundo que eu quero ver.
E que venham mais chances de mostrar que temos direito a nós mesmxs!
Muito mais curiosos e fotógrafos do que manifestantes, a minha super exposição, a explicação que vou ter de repetir inúmeras vezes, a reprovação de muitos, dentre outros pontos desagradáveis, ainda me incomodam...
É óbvio que há ressalvas a serem feitas sobre o evento, mas como a Maria disse, não critico mulher alguma que tenha ficado com seu sutiã. Eu decidi tirá-lo, mas compreendo quem não pudesse - pela repercussão - ou se sentisse acuada.
Confesso que ao perceber o clima de circo - no pior sentido de espetáculo mesmo - que havia tomado a praia, hesitei. Porém, ao ver que algumas poucas mulheres levavam a causa adiante, me senti quase na obrigação de fazer o mesmo. Era uma questão de honra, mais do que de coragem. O meu peito não é obsceno, tenho de dizer. Esteja ele exposto em conjunto com outros tantos ou apenas com as poucas que tiveram fibra pra se despir.
Em um primeiro momento, me senti violentada. Não acho razoável andar com uma horda de mais de 100 pessoas ao meu redor, ávidas por qualquer registro de uma imagem minha. Não sou famosa, não fiz isso na tentativa de chamar a atenção por um motivo banal. E é aí que eu talvez tenha feito algo válido.
Sei que a apropriação midiática feita do ocorrido é fetichista, manipuladora. Estou - eu, branca, magra, loira, de cabelo liso, jovem - exposta em muito mais sites do que as senhoras que faziam o mesmo, logo atrás, bem mais transgressoras ao meu ver (e que lindo!). Mas não podia deixar de lado o meu grito, por mais que ele chegue de forma equivocada em certos ouvidos.
Quero agradecer o apoio de quem compreendeu o gesto, as mulheres e homens que participaram do Toplessaço e a enorme força da Maria e dos meninos que estavam comigo. Entendo a discordância de alguns e acredito que é através do debate (e não do ataque intolerante) que se dá a construção do mundo que eu quero ver.
E que venham mais chances de mostrar que temos direito a nós mesmxs!
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Sobre Aninhar-se
pra quê essa gana de prender
se não é assim que se tem?
deixa livre o querer
e vem quando for
pode até ser que não esteja mais
posto que não se dobra muitas vezes
mas o importante é o voo
a ausência é detalhe
se não é assim que se tem?
deixa livre o querer
e vem quando for
pode até ser que não esteja mais
posto que não se dobra muitas vezes
mas o importante é o voo
a ausência é detalhe
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
laje
favela acesa à noite
barracos cintilantes
casebres incandescentes
em que menino de pé descalço
e o chinelo velho
que arrasta no pé da mãe
fazem o som
cravejados no morro
cada luzinha, um zé
um Amarildo
que ganha esculacho de graça
porque o senhor não admite
que o preto saia da senzala
(embora não possa evitar o samba)
é carnaval no morro
e as luzes da favela
tocam pandeiro
barracos cintilantes
casebres incandescentes
em que menino de pé descalço
e o chinelo velho
que arrasta no pé da mãe
fazem o som
cravejados no morro
cada luzinha, um zé
um Amarildo
que ganha esculacho de graça
porque o senhor não admite
que o preto saia da senzala
(embora não possa evitar o samba)
é carnaval no morro
e as luzes da favela
tocam pandeiro
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
ensaio sobre a esquiva
hasteia o mais alto que pode
a bandeira branca
nas mãos trêmulas
mas como fazer
pra toda fúria reconhecer
que ele se retira?
se entorta todo
e por mais agitado que esteja
aquele pano já não tão alvo, surrado,
é a negativa pro abate mútuo
mas, não reconhecido
lá vai ele outra vez
soldado forçado
tanque, capacete, coturno, fuzil
farda e toda tralha de servir
não lhe serve de nada
mais vale deitar nas trincheiras
e fingir que os traçantes são estrelas cadentes
bem rente aos olhos frígidos
eles ignoram a recusa
ele ignora a cólera
à espera do desejo lhe atravessar o peito
porque só projétil liberta da peleja
a bandeira branca
nas mãos trêmulas
mas como fazer
pra toda fúria reconhecer
que ele se retira?
se entorta todo
e por mais agitado que esteja
aquele pano já não tão alvo, surrado,
é a negativa pro abate mútuo
mas, não reconhecido
lá vai ele outra vez
soldado forçado
tanque, capacete, coturno, fuzil
farda e toda tralha de servir
não lhe serve de nada
mais vale deitar nas trincheiras
e fingir que os traçantes são estrelas cadentes
bem rente aos olhos frígidos
eles ignoram a recusa
ele ignora a cólera
à espera do desejo lhe atravessar o peito
porque só projétil liberta da peleja
domingo, 1 de dezembro de 2013
Pra Rebeca VI
Rio, 13-12-76
Oi Rebeca,
Como cê tá? Soube o que você está começando a sair por aí, fazendo amigos e se divertindo. E fico feliz por ti, que isso tudo faz bem pra alma. É sempre bom expandir os horizontes, ter novas experiências, poder ter contato com outras visões de mundo. Eu já nem sei mais qual é a minha. Às vezes eu penso que nem existo.
Rebeca, você já desejou ser outra pessoa? Não assim uma pessoa importante, como uma atriz ou cantora famosa, mas uma outra mulher qualquer, só pra não ser você mesma. Acordar tendo outra vida completamente diferente, com outras pessoas ao teu redor, com outro nome, família e emprego diferente, outra rotina, todo trocado... Eu já.
Nem sei mais quantas vezes eu fantasiei personagens pra mim mesmo, antes de dormir, na esperança de despertar e dar certo. Mas às vezes Deus ouve as nossas preces e a resposta é "não". Há de se aprender a ser quem é, quem quer que seja.
Sei que isso não faz muito sentido, mas ultimamente tenho pensado sobre isso e não ser mais o que faz sentido. Vai ver é esse o sentido das coisas: não ter sentido nenhum. A gente se aborrece, perde um tempo imenso, precioso, procurando significado, utilidade, tentando entender e compreender tudo. As pessoas sempre acham que tudo está ligado entre si, com uma relação clara de causa e efeito, quiçá que é preciso aprender com as coisas. Talvez não seja verdade. Talvez isso tudo seja só uma fórmula, um modo de viver que o homem criou pra si, achando que era melhor. Claro, todo sofrimento fica mais ameno se vier pra algo bom, se a lição for o sentido, a utilidade. Mas será que a gente só pode aprender na base do choro?
Eu queria que as coisas pudessem ser mais fáceis, sabe? E não é só pra mim não. Pra todo mundo. Mas parece que toda essa evolução que a humanidade tem, não serve pra nada, não significa porríssima nenhuma. Tudo o que a gente desenvolveu, criou, aprendeu até hoje, foi na intenção de facilitar a vida, economizar tempo, aproximar as pessoas... E como estamos hoje? A cada dia, com a rotina mais biruta, de um lado pro outro numa busca cega por não sei o quê, cada vez mais distantes uns dos outros, mais infelizes e solitários. É tudo parafernalha, tudo complicação que a gente mesmo inventa.
O ser humano não sabe, nunca soube e acho que nunca vai saber o que é melhor pra si. A intenção pode até ser boa, a teoria pode estar certa, mas a prática é uma catástrofe.
É por isso que a gente tem pai e mãe: pra poder culpar. Se a gente tem alguém contra quem se revoltar, perde o tempo brigando com essa pessoa e não vê o quão babaca está sendo.
O que me revolta mais, nêga, é saber que as coisas podiam ser tão mais simples, mais indolores... Já conversei com a Inês sobre isso, ela pensa como eu. As pessoas se sabotam o tempo todo, como se fossem seu próprio inimigo, segundo ela. Sempre se desviando das prioridades, se ocupando mais do que podem dar conta, só pra não conseguirem fazer aquilo que querem e serem vítimas de si mesmas. Eu concordo.
Ah, nêga, eu só queria respirar ar puro de vez em quando, ter mais espaço pra poder ser eu mesmo, ter paz. Mas eu sou sempre o fotógrafo, o filho, o neto, o homem da casa, o sei lá o quê. Acho que eu preciso de mais 30, só pra dar conta de mim... Ah, deixa pra lá.
Me conta mais dos teus novos amigos, como são, pra onde cê tem saído com eles, essas coisas. Fiquei curioso, imaginando as tuas novas "aventuras". Cheguei até mesmo a ter certos ciúmes, mas é coisa boba, como criança que não gosta de dividir a mãe com o irmão. Mas não tem escolha e com o tempo se acostuma.
Rebeca, tenho que terminar por agora. Já é tarde da noite e amanhã bem cedo eu vou levar Inês ao médico. Acho que é normal, da idade, mas ela diz que a visão já não é mais a mesma. Reclama na hora de ler o jornal ou um livro, de pegar um ônibus, diz que não gosta de pedir ajuda. Ela é parecida comigo até demais.
Beijo, nêga.
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