domingo, 28 de julho de 2013

Tapume

calou-se
que não havia som
que superasse o toque
mas na falta
arrumou teco
pra tapar buraco
no teto

Mê di dor

qual a distância
entre a fome e a falta?

Umbilical

Pessoalmente, acho que o melhor de ser um bebê é que as pessoas te pegam no colo e fazem carinho sem dizer nada. Queria ser um bebê.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

domingo, 14 de julho de 2013

Fim de Beck



Passou os dedos molhados na brasa com cuidado, tragou e prendeu. Silêncio e o pensamento dela distante... Passou pra ele e em seguida preencheu o quarto com a fumaça.
- Cê não fica triste de envelhecer?
Ele franziu a testa, pensando numa resposta sem desviar os olhos do lençol caído nas pernas dela. Tragou, passou a ponta dos dedos pela barriga dela e devolveu.
- Mas se a gente não envelhece, morre.
- É... Mas ficar velho é morrer aos poucos, em vida. Por isso que é tão triste. A gente morre pro mundo e depois pra si mesmo. É o contrário das estrelas. As estrelas já morreram e a gente fica vendo esse espetáculo nostálgico. É tão triste a gente aplaudir assim o que já passou.
A voz dela trazia uma calma misturada com melancoliazinha bem disfarçada. Pena ele não ter percebido esse pedacinho d'alma dela.
Levou a mão grande até bem perto dos seios dela, chegou o copo mais pra perto e ficou brincando de passar aquele cabelo fino entre os dedos. Bateu as cinzas, fumou e soltou a fumaça pra cima.
- Cê não precisa morrer pra envelhecer. Parte de ficar velho é ter vivido bastante e isso pode ser bem feliz. Você pode ter tido várias experiências, ter feito muito do que queria...
Ela puxou, pensou em silêncio e olhando pro teto. As coxas nas coxas dele, soltou o ar devagar.
- Morrer é estranho. Faz tudo perder um pouco do sentido. Não importa que você seja foda ou um ninguém, que encontre a cura do câncer ou morra de overdose. Você vai morrer, vai deixar de existir. Um dia, a humanidade toda vai. Nada do que você fez vai fazer diferença... E, no entanto, a gente vive num tempo em que se é prisioneiro daquilo que faz ou deixa de fazer. Acho que a gente gosta de se contradizer. - soltou um risinho tímido.
Ele ensaiou um cafuné e procurou o isqueiro com os olhos.
- Esse discurso parece pretensão de quem queria ser notável e percebe que isso não importa muito. De qualquer forma, pode ser ao contrário também. Morrer pode ser bom... Já pensou que agonia viver pra sempre? Viver todo dia cansa, não é à toa que a gente se anestesia. E é no fim que as coisas perdem o sentido, mas é você quem pode dar. Cê dá o sentido que quiser e isso é libertador. É bonito e alegre, até.
Ele aproveitou a pausa pra acender e puxar. Ela virou pro lado dele, pousou lentamente a mão sobre o peito, beijou de leve o pescoço e piscou sem que ele visse.
- Você vê as coisas como se elas deixassem as pessoas livres, eu vejo como se prendessem cada vez mais. Isso de cada um dar o próprio sentido às coisas pode afastar as pessoas, trancar todo mundo num universo próprio das significações particulares. Não tem troca, não tem nada compartilhado. É um "co-habitar" de espaços, não é conviver.
Ela falava como quem se queixa de um jeito manso. Ele decidiu apagar no cinzeiro, inspirou o que pareceu ser uma eternidade - e deve ter sido, n'algum canto - soltou rápido. Ela virou o rosto um pouco, queria vê-lo falar.
- E já não é um pouco assim? Se tem alguma coisa que prende a gente, é a gente mesmo. Os medos que a gente tem, os amores, as coisas que acredita, que acha certo e que acha que sabe... As pessoas são muita coisa, pra estarem presas nessa capa de pele. Imagina que caos que seria se tudo fosse em comum e nada fosse só? Já basta a confusão de um vista em conjunto, que dirá de tudo misturado. É bom estar sozinho pra respirar um pouco... Mas é injusto dizer que só por isso não tem troca. Um dia, assim por acaso, dois mundos se chocam. Não existe isso no espaço? O que impede de acontecer com a gente?
Já ia ficando claro, os dois cansados, a sucessão de suspiros longos e pesados, junto com o bater lento de pálpebras que mais pareciam querer cair.
As possibilidades talvez ainda existissem, enquanto os dois adormeciam juntos, às seis da manhã de qualquer sábado.

Sobre Fornos Programados


aquilo que sai em torrente
não convém ser espremido em gota
não se dá liga à força
que desanda e a palavra tranca

Sarará

na barra da saia
d'uma nêga rosada
tem uma frô sem cor
com chêro de mato

moça descalça
dança na poça
e samba no asfalto
no compasso
sem contrato no tato
do sapato

laço de fita
pra prender cacho de menina
enquanto ela roda
e espalha seu perfume de chuva

segunda-feira, 1 de julho de 2013

breves histórias possíveis

sopro daquilo que é humano e livre
e, ao contrário do que se pensa,
não é imaculado


é bicho que arranha as costas da gente,
bagunça o cabelo todo
e no fim tá deitado junto, fazendo carinho com a ponta dos dedos
é encostar a ponta do nariz gelado na nuca, só pra fazer graça
é fitar os olhos e soltar um risinho de lado,
como se tivesse descobrindo um segredo por vez

todo amor de 24 horas é mais crível