segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pra Rebeca V

Rio, 28-11-1976

Oi Rebeca, 
Sei que não é bem meu tipo ficar tanto tempo assim sem escrever pro'ocê, e se pudesse, te mandava carta todos os dias. Mas não posso. Esse mês foi foda de tão cheio. O trabalho lá na gravadora, a casa nova, tá tudo isso me desgastando, me sobrecarregando. É todo dia um problema novo, uma conta diferente, uma coisa nova pra resolver. Mas eu sei que tudo vai melhorar, eu tenho que pelo menos fingir que sei. E você, como tá indo por aí?
Pelo que fiquei sabendo essa semana, cê só volta depois de janeiro. Fiquei curioso: qual seria o motivo dessa demora toda? É tão melhor a companhia dos livros à minha? Ou isso é medo de voltar mesmo? É, eu sei que foi uma brincadeira amarga. Desculpa, minha cabeça já não tá dando conta. Não foi um mês legal, esse.
Essa semana fui almoçar com o velho. Foi ele quem convidou e eu não pude recusar. Minha irmã também foi e, além disso, o aniversário dele é semana que vem. Ele disse que quer viajar pra comemorar. Irrecusável, o almoço. Mas alegria, não sinto não. Ele contou as mesmas piadinhas, me comparou a ele ("na sua idade, eu já era assim e blá, blá, blá"), se vangloriou - afinal, ele é o maior, o fodão. Depois, bebeu pra caralho e ficou meloso, se humilhando e contando as mágoas, que "fui abandonado, não tenho mais família nenhuma". O quê responder pra um sujeito assim? Principalmente o pai e a gente já com mil encanações. É deprimente.
Pra completar o dia, Soninha e eu fomos deixar o velho em casa. Discutimos feio lá. Ela ficou com raiva de mim, por ter dito que eu acho válida qualquer forma de anestesia, de fuga pra um universo paralelo, qualquer coisa que possa ser uma alternativa a esse mundo tão bruto, tão torto. Ela me acusou de dar força pro velho beber. Vai ver ela tá certa e ele deva parar mesmo. Mas não vai. Soninha ficou o resto do dia de cara fechada, não voltou comigo pra casa. Dormiu com papai aquele dia, como se ele fosse uma criança com medo do escuro, uma samambaia que precisa ser regada, sei lá. Eu tô cansado dele ser assim. Tô cansado de dar colo pra quem devia fazer isso no meu lugar. O velho não tem mais jeito não, já me conformei.
Há dois dias me ligaram no trabalho, tive que sair correndo por culpa dele. Seu Rui saiu trocando as pernas de algum bar e veio direto na gravadora, dizendo que tinha uma música pra mostrar. Levei quase a tarde inteira pra tirá-lo daquele pileque. Aguentei meu pai falando fofo, vomitando, chorando e caindo. Meu chefe deu uma puta d'uma bronca, ficou puto e com razão. Disse que só não me manda embora porque acredita em mim, mas que se eu pisar na bola de novo, não vai poder me dar uma segunda chance. É, nêga, eu devo tomar cuidado, se não quiser perder o emprego.
E isso tudo ainda ouvindo Inês dizer que devemos agradecer a Deus o tamanho da nossa bênção, dizer que eu podia não ter uma casa, passar fome, ser sozinho. Saber que há pessoas que sofrem mais que eu, não me alivia. Sinceramente, eu devo dar graças a essas coisas mesmo? Meu pai bêbado, o trabalho que me consome, sustentar a casa sozinho, você longe de mim, as brigas frequentes com Soninha, é tudo bênção. Mas devo ser grato por não ser pior, não é?
No último final de semana fez um calor do caralho, um puta sol mesmo, dia perfeito pra dar uma chegada até a praia. Infelizmente, eu tava cansado, exausto e ainda ocupado. Não pude nem ver a praia de longe.
Ah, Rebeca, dizem que Deus não dá uma cruz mais pesada do que aquela que a gente é capaz de carregar... Mas se é assim, por que é que as pessoas se matam? Por que a gente tá sempre fugindo das coisas? Se Deus existe, ele é um belo d'um sacana.
Nêga, desculpa a minha raiva, minha agressividade. É desgosto. Queria ter só coisas boas pra te contar, poder imaginar teu sorriso ao ler as notícias que eu escrevi. Mas eu nem me atreveria a mentir pra você. Seria muita canalhice contigo e até comigo mesmo.
Não deixa de me escrever nunca, que eu tô morrendo de vontade de você, nem que seja pra te ter assim, só nas linhas de um papel.
Tchau nêga.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

práxis: última pergunta ao co(r)po

outra vez mais
não posso.
te tenho
e me escapo:
no tato
somos gato e rato,
mal trato
(me detenho)

no compasso
fujo.
abomino o jogo,
mas do abismo eu pulo
(desdenho do risco, arrisco)

não contenho
e sou
quando deveria prever a queda
(você me sorve a calma)

teu braço,
éramos ao menos metade
e não sei ser o que não fui
- já que feito pra nunca ser - 
não flui
(rio não é)

projeto de feto não nascido,
és protótipo indeferido,
indiscreta frustração do eu
que revisito no outro
quando toco
você em mim
(defeituoso veneno intravenoso,
injeto)

deixa de ser pele
e varre de mim o apelo,
já que não peço e não sei dar.

não há meia-volta,
reconciliação não há
que há quereres irreconciliáveis
e entre o servo, o espírito e a carne
escambo não há
(será?)

fico no ar,
inalo
- renúncia -
pronuncio calmo
e suspiro
é a última no ar,
enfim a sós.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

general à palmatória

eu espero que a farda cubra tua vergonha
e que a uses pra limpar do chão os corpos
de tanta gente que tu fizeste sangrar

eu espero que esse teu escudo
sirva pra tapar toda violência à tua frente
e que teu capacete seja pra não te deixar ter consciência

eu te vejo empunhar armas e cacetetes,
te vejo com cães, gases, sprays e teaser guns

e eu espero que tudo isso sirva pra afugentar tua honra

soldado de merda
que serve à pútrida pátria
não merece patente mais alta
do que um tiro de coragem
pra desafiar a ordem

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Asfalto

menino na rua
com os pés descalços,
sentado no chão
ou andando sem rumo
invisível entre a gente

menino que dorme junto com os outros
pra se proteger do frio
e que à noite tem o teto estrelado

menino que corre entre os carros
que pede, que furta, que rouba,
já que ninguém nunca tem trocado
pra comida ou pra pedra

menino sem nome

moleque, menó, pivete, ô garoto!
é tudo, menos criança...
na Central, no Centro, Candelária,

Cinelândia, Lapa, Tijuca,
na Brasil, Gramacho ou qualquer lugar
não tem mais criança lá.