quarta-feira, 25 de setembro de 2013

E nunca um gole desceu tão bem

Àquela altura, não lhe restava remédio. Cansou-se de tentar desfazer qualquer coisa e assim, entregue, dirigiu-se até a entrada do bar mais próximo. Entrou, sentou-se e apoiou os braços no balcão, falando com a serenidade de quem sabe que o fracasso é inevitável:
- Me vê aí uma garrafa de amnésia.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

nebulosa

São dias estranhos,
esses em que o luto é luxo
que não me dou
pra não me perder.

Texas Hold'em

something not more than strange,
I can not detect in you
a puzzle without pieces sisters
be
more
clear,
Mr.
I can't swing in the silence of your skin

can you make me crumble?
unmistakable feeling of nothing.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pra Rebeca IV

Rio, 8-11-1976

Oi Rebeca,
Sei que cê deve estar pensando que só resolvi te escrever por hoje ser domingo, mas é engano seu. Passei o dia ocupado, me despedindo do mar, que por enquanto ainda posso curtir assim, pertinho de mim. Daqui a uns dias eu me mudo, daí fica mais difícil de dar um mergulho. Fui hoje lá na praia, ter com ele. Sentei na areia e fiquei um bom tempo só admirando a forma das ondas, como uma vem sempre seguida da outra... Só olhando e pensando.
E eu pensei em como eu tenho um sentimento esquisito aqui por dentro, de amor e ódio profundo das pessoas. É engraçado, né? O amor é fácil d'eu explicar: pela fragilidade, pela forma ingênua que a gente tá sempre se deixando levar e perder pelo outro, pela poesia de tanta coisa simples que se inventa na hora e se esquece depois, pelo novo, pelo belo, pela juventude da alma. Mas aí não dá pé, porque eu lembro sempre do ódio, do nojo que eu sinto junto. E é tudo por conta do desperdício, das complicações que a gente cisma de inventar, da ignorância, da dor que a gente cisma em achar bonita nos outros e na gente também, e deixa tudo assim, com um ar frio de competição.
Ah, Rebeca, já te disse que nesse mundo eu não ponho filho, né? Eu adoro criança, mas por mais cruéis que elas possam ser (e algumas são perfeitas), elas não tão preparadas. Ninguém nunca tá, e a gente tem mania de esperar que esteja. Nêga, perdi o fio da meada.
Esse dia foi gostoso pra caralho, só faltou uma cerveja gelada pr'eu beber. Não tinha nem cheiro daquela multidão toda na praia, só eu. Vai ver era o céu, que tava nublado. O pessoal sempre fica com medo da chuva, não sei o porquê. Aliás, as pessoas são covardes, sempre têm medo de tudo. Eu gosto de chuva, sei que você também.
Mais tarde, eu ouvi um disco com a  Inês, lá em casa. Ou pelo menos tentei, já que a vó tá ficando surda. Tadinha, de tão velha tá deixando de escutar. Mas é uma graça, uma delícia dançar com alguém que não liga pro ritmo. Deve ser esse o certo, o modo que os velhos ficam: perdendo os sentidos, "desaguçando" aos pouquinhos, que é pra aproveitar mais o que é bom. Sacou? Se cê ouvir a música bem demais, absorve cada nota, cada marcação, os instrumentos, tudo, mas se esquece de aproveitar a dança. É confuso mesmo. Eu consigo te imaginar rindo, que cê acha gozadas essas minhas divagações mundanas...
Mas deixa esse assunto de lado, um pouco. É claro que to escrevendo pra saber como cê tem andado. Já começaram as provas, e aí? Como tá indo teu modesto calvário? Qualquer hora cê funde a cuca, nêga, de tanto livro que tá pesquisando.
Ah, falaram de você aqui em casa, sabia? Foi a vó, pra variar. Dona Inês lembrou de ti chegando aqui em casa, encharcada da chuva, me gritando do lado de fora do portão. "Bem coisa de moleque", ela falou. Só a vó contar essa, que eu me derreti de vontade de ficar na chuva contigo outra vez. Se eu pudesse, ia até aí agorinha, te buscava e fazia cê brincar comigo, debaixo do maior temporal. Duvido que você recusasse pular nas poças, apostar corrida, tudo "que nem pinto molhado", como Yedda diz.
O chato ia ser depois, a gripe danada que a gente ia pegar. O velho reclamando, dizendo qu'eu não tenho mais idade pra aprontar essas traquinagens, que depois dele eu sou o homem da família e tudo o mais. Rebeca, o pai não larga do meu pé. Vive só reclamando de mim, do meu emprego, da Inês, da vida... Eu não posso mais com ele. Não posso. Por ele, eu seria um Rui mais moço, sabe? Só que eu não sou ele, eu só seu ser eu mesmo. Aliás, eu não SEI ser ninguém.
De qualquer forma, to me mudando no final desse mês ainda. Aí tudo toma um rumo, com certeza. E to super feliz por isso: ter o meu espacinho, meu canto. (Só de não ser do velho, ele já é mais meu, ainda que eu não esteja lá sozinho.) O pai tá triste, dizendo que vou abandoná-lo, que por mim eu nunca mais piso aqui. Não é verdade, não tem como abandonar. Nem que eu quisesse.
Rebeca, já é tarde da noite, vou descansar. Vê se me conta mais detalhes de você, hein! Não demora a responder, tá? Mando beijos do pessoal daqui, tamos todos torcendo por ti. Boa sorte!
Beijo

PS: Agora de manhãzinha eu tive de continuar a te escrever. É que acabei de acordar de um sonho biruta que tive contigo, nêga. Acho que foi porque fiquei pensando n'ocê até adormecer ontem. No meu sonho, tinha uma mulher gorda estendendo umas roupas no varal. Era roupa pra dedéu: blusa, calça, lençol, etc. E vinha você, que era um bem-te-vi, pousar na corda do varal. Assim que a gorda reparava no passarinho, ele fazia xixi no lençol.
Hilário era a rechonchuda jogando praga num bichinho tão pequeno que cê era. A mulher ficava brava, de cara amarrada o dia inteiro, por você ter estragado todo o trabalho dela.
Sei que é piegas ficar contando que sonhei com você, mas esse até que foi gozado. Achei que cê poderia gostar de saber.
Enfim, beijão.

domingo, 8 de setembro de 2013

faxina

deixo assim,
cada grão em sua praia
que é pro mar não misturar
areia de duas cores
mosaico não forma mais
desenho de ontem,
hoje não se faz

bate a onda pra apagar as imagens que fiz na cabeça

sábado, 7 de setembro de 2013

apodrecer

duas vezes,
menos uma morte
sentir o doce virar cólera

fantasma do que se quis e não teve
tudo o que quis, ouviu
mas cansou de se trair com outro
que deitar não é unir
e falar não é ter

já não fala e não quer,
pra não descumprir o próprio peito
já que de outro jeito
não sabe ser

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Pra Rebeca III

Rio, 31-10-1976

Rebeca,
Gostei muito da tua resposta! Quase dei um pulo no coitado do carteiro, quando ele chegou aqui. Curti bastante sabre que você tá procurando fazer aquilo que te falei.
Cê sabe que tinha até me esquecido de como a tua letra é no papel? Parece um boca com letra de homem, ou de quem escreve apressado. Em geral, as gurias têm mania de fazer tudo caprichado, com aquelas letrinhas redondas, desenhadas, mas você escreve sem frufru. Sei lá, bobeira minha isso de ficar reparando a caligrafia das pessoas.
Mudando de assunto... Quê que cê acha d'eu fotografar uma sala de aula cheia de gurias, só gurias e um professor lá na frente, tentando dar aula? Detalhe: todas as meninas com um rádio de pilha no ouvido. Bastava pegar metade da sala: umas 20, 15 já servem. (Tá passando Projeto Minerva, com uma análise dos hinos e marchas cívicas nacionais. Finalmente chegou ao Hino Nacional, seus autores, palavras, letra e música, ritmo - vibrante e bem marcado. "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas". Uma boa pegadinha, isso é que é.)
Nêga, cê sabe o que lembrei hoje? Daquela pequena zona que a gente fez, junto com a Rosana, lá na sorveteria. Quando cê voltar pro Rio, a gente podia fazer outra, maior ainda. Só pra rir, que é muito engraçado, só de molecagem.
Ah, Rebeca... olha só, já to eu aqui, bobo de novo. Assim, só pensando nas suas coisas que me dão saudades, no tamanho dessas saudades. Puta, Rebeca, um dia desses eu acabo explodindo.
Nega, deixa eu ir, que ainda tenho que sair pra trampar hoje. Queria poder ir na praia contigo e a Regina, pegar jacaré, com esse calor. Um sol lindo que tá fazendo, cê tinha que estar vendo.
Por favor, não deixa de responder.
Tchau, Rebeca.

Alice Inseto

Pariu de fruto desterro,
que de início lhe abriu buraco no peito.
E assim, vazia,
buscou arsênio pra matar a sede
de cessar todo medo e dor.

Bebeu sem deixar gota,
sem sentir gosto.
O sangue fino e quente
fez-se viscoso, quieto e apático.

De secos ossos, virou pó
e tentou voar junto às cinzas.

Mas como culpa pesa,
hoje se arrasta tal qual lagarta no chão.
E centopeia manca que é,
contenta-se em se espalhar com a poeira no vento.
 

domingo, 1 de setembro de 2013

Subsolo 101

Eu conheço cada som da minha casa.
Sopro de vento, cachorro do vizinho e planta.
Eu conheço cada sombra daqui,
milimetricamente posta, sob ordem do sol.
Eu sei de cada grão de poeira
em cima dos móveis, cobrindo o chão,
na sola dos meus pés, fazendo misturar.

Eu sei onde tem cheiro de mofo,
onde tem cupim, a casa das traças.
Eu conheço cada cantinho claro e escuro,
onde a luz bate primeiro, de manhã.
E cada folha que invade a escada,
eu sei como se mexe,
quando o vento faz carinho.

Cada janela, taco de madeira, azulejo,
com gota de chuva, eu sei como fica.
Os cômodos, todas as paredes,
eu sei o eco que dão,
onde tem desenho de criança,
onde falta pintar,
onde tem teia de aranha.

Barulho de chave, campainha duas vezes,
já sei quem chegou.