Rio, 8-11-1976
Oi Rebeca,
Sei que cê deve estar pensando que só resolvi te escrever por hoje ser domingo, mas é engano seu. Passei o dia ocupado, me despedindo do mar, que por enquanto ainda posso curtir assim, pertinho de mim. Daqui a uns dias eu me mudo, daí fica mais difícil de dar um mergulho. Fui hoje lá na praia, ter com ele. Sentei na areia e fiquei um bom tempo só admirando a forma das ondas, como uma vem sempre seguida da outra... Só olhando e pensando.
E eu pensei em como eu tenho um sentimento esquisito aqui por dentro, de amor e ódio profundo das pessoas. É engraçado, né? O amor é fácil d'eu explicar: pela fragilidade, pela forma ingênua que a gente tá sempre se deixando levar e perder pelo outro, pela poesia de tanta coisa simples que se inventa na hora e se esquece depois, pelo novo, pelo belo, pela juventude da alma. Mas aí não dá pé, porque eu lembro sempre do ódio, do nojo que eu sinto junto. E é tudo por conta do desperdício, das complicações que a gente cisma de inventar, da ignorância, da dor que a gente cisma em achar bonita nos outros e na gente também, e deixa tudo assim, com um ar frio de competição.
Ah, Rebeca, já te disse que nesse mundo eu não ponho filho, né? Eu adoro criança, mas por mais cruéis que elas possam ser (e algumas são perfeitas), elas não tão preparadas. Ninguém nunca tá, e a gente tem mania de esperar que esteja. Nêga, perdi o fio da meada.
Esse dia foi gostoso pra caralho, só faltou uma cerveja gelada pr'eu beber. Não tinha nem cheiro daquela multidão toda na praia, só eu. Vai ver era o céu, que tava nublado. O pessoal sempre fica com medo da chuva, não sei o porquê. Aliás, as pessoas são covardes, sempre têm medo de tudo. Eu gosto de chuva, sei que você também.
Mais tarde, eu ouvi um disco com a Inês, lá em casa. Ou pelo menos tentei, já que a vó tá ficando surda. Tadinha, de tão velha tá deixando de escutar. Mas é uma graça, uma delícia dançar com alguém que não liga pro ritmo. Deve ser esse o certo, o modo que os velhos ficam: perdendo os sentidos, "desaguçando" aos pouquinhos, que é pra aproveitar mais o que é bom. Sacou? Se cê ouvir a música bem demais, absorve cada nota, cada marcação, os instrumentos, tudo, mas se esquece de aproveitar a dança. É confuso mesmo. Eu consigo te imaginar rindo, que cê acha gozadas essas minhas divagações mundanas...
Mas deixa esse assunto de lado, um pouco. É claro que to escrevendo pra saber como cê tem andado. Já começaram as provas, e aí? Como tá indo teu modesto calvário? Qualquer hora cê funde a cuca, nêga, de tanto livro que tá pesquisando.
Ah, falaram de você aqui em casa, sabia? Foi a vó, pra variar. Dona Inês lembrou de ti chegando aqui em casa, encharcada da chuva, me gritando do lado de fora do portão. "Bem coisa de moleque", ela falou. Só a vó contar essa, que eu me derreti de vontade de ficar na chuva contigo outra vez. Se eu pudesse, ia até aí agorinha, te buscava e fazia cê brincar comigo, debaixo do maior temporal. Duvido que você recusasse pular nas poças, apostar corrida, tudo "que nem pinto molhado", como Yedda diz.
O chato ia ser depois, a gripe danada que a gente ia pegar. O velho reclamando, dizendo qu'eu não tenho mais idade pra aprontar essas traquinagens, que depois dele eu sou o homem da família e tudo o mais. Rebeca, o pai não larga do meu pé. Vive só reclamando de mim, do meu emprego, da Inês, da vida... Eu não posso mais com ele. Não posso. Por ele, eu seria um Rui mais moço, sabe? Só que eu não sou ele, eu só seu ser eu mesmo. Aliás, eu não SEI ser ninguém.
De qualquer forma, to me mudando no final desse mês ainda. Aí tudo toma um rumo, com certeza. E to super feliz por isso: ter o meu espacinho, meu canto. (Só de não ser do velho, ele já é mais meu, ainda que eu não esteja lá sozinho.) O pai tá triste, dizendo que vou abandoná-lo, que por mim eu nunca mais piso aqui. Não é verdade, não tem como abandonar. Nem que eu quisesse.
Rebeca, já é tarde da noite, vou descansar. Vê se me conta mais detalhes de você, hein! Não demora a responder, tá? Mando beijos do pessoal daqui, tamos todos torcendo por ti. Boa sorte!
Beijo
PS: Agora de manhãzinha eu tive de continuar a te escrever. É que acabei de acordar de um sonho biruta que tive contigo, nêga. Acho que foi porque fiquei pensando n'ocê até adormecer ontem. No meu sonho, tinha uma mulher gorda estendendo umas roupas no varal. Era roupa pra dedéu: blusa, calça, lençol, etc. E vinha você, que era um bem-te-vi, pousar na corda do varal. Assim que a gorda reparava no passarinho, ele fazia xixi no lençol.
Hilário era a rechonchuda jogando praga num bichinho tão pequeno que cê era. A mulher ficava brava, de cara amarrada o dia inteiro, por você ter estragado todo o trabalho dela.
Sei que é piegas ficar contando que sonhei com você, mas esse até que foi gozado. Achei que cê poderia gostar de saber.
Enfim, beijão.