domingo, 14 de julho de 2013

Fim de Beck



Passou os dedos molhados na brasa com cuidado, tragou e prendeu. Silêncio e o pensamento dela distante... Passou pra ele e em seguida preencheu o quarto com a fumaça.
- Cê não fica triste de envelhecer?
Ele franziu a testa, pensando numa resposta sem desviar os olhos do lençol caído nas pernas dela. Tragou, passou a ponta dos dedos pela barriga dela e devolveu.
- Mas se a gente não envelhece, morre.
- É... Mas ficar velho é morrer aos poucos, em vida. Por isso que é tão triste. A gente morre pro mundo e depois pra si mesmo. É o contrário das estrelas. As estrelas já morreram e a gente fica vendo esse espetáculo nostálgico. É tão triste a gente aplaudir assim o que já passou.
A voz dela trazia uma calma misturada com melancoliazinha bem disfarçada. Pena ele não ter percebido esse pedacinho d'alma dela.
Levou a mão grande até bem perto dos seios dela, chegou o copo mais pra perto e ficou brincando de passar aquele cabelo fino entre os dedos. Bateu as cinzas, fumou e soltou a fumaça pra cima.
- Cê não precisa morrer pra envelhecer. Parte de ficar velho é ter vivido bastante e isso pode ser bem feliz. Você pode ter tido várias experiências, ter feito muito do que queria...
Ela puxou, pensou em silêncio e olhando pro teto. As coxas nas coxas dele, soltou o ar devagar.
- Morrer é estranho. Faz tudo perder um pouco do sentido. Não importa que você seja foda ou um ninguém, que encontre a cura do câncer ou morra de overdose. Você vai morrer, vai deixar de existir. Um dia, a humanidade toda vai. Nada do que você fez vai fazer diferença... E, no entanto, a gente vive num tempo em que se é prisioneiro daquilo que faz ou deixa de fazer. Acho que a gente gosta de se contradizer. - soltou um risinho tímido.
Ele ensaiou um cafuné e procurou o isqueiro com os olhos.
- Esse discurso parece pretensão de quem queria ser notável e percebe que isso não importa muito. De qualquer forma, pode ser ao contrário também. Morrer pode ser bom... Já pensou que agonia viver pra sempre? Viver todo dia cansa, não é à toa que a gente se anestesia. E é no fim que as coisas perdem o sentido, mas é você quem pode dar. Cê dá o sentido que quiser e isso é libertador. É bonito e alegre, até.
Ele aproveitou a pausa pra acender e puxar. Ela virou pro lado dele, pousou lentamente a mão sobre o peito, beijou de leve o pescoço e piscou sem que ele visse.
- Você vê as coisas como se elas deixassem as pessoas livres, eu vejo como se prendessem cada vez mais. Isso de cada um dar o próprio sentido às coisas pode afastar as pessoas, trancar todo mundo num universo próprio das significações particulares. Não tem troca, não tem nada compartilhado. É um "co-habitar" de espaços, não é conviver.
Ela falava como quem se queixa de um jeito manso. Ele decidiu apagar no cinzeiro, inspirou o que pareceu ser uma eternidade - e deve ter sido, n'algum canto - soltou rápido. Ela virou o rosto um pouco, queria vê-lo falar.
- E já não é um pouco assim? Se tem alguma coisa que prende a gente, é a gente mesmo. Os medos que a gente tem, os amores, as coisas que acredita, que acha certo e que acha que sabe... As pessoas são muita coisa, pra estarem presas nessa capa de pele. Imagina que caos que seria se tudo fosse em comum e nada fosse só? Já basta a confusão de um vista em conjunto, que dirá de tudo misturado. É bom estar sozinho pra respirar um pouco... Mas é injusto dizer que só por isso não tem troca. Um dia, assim por acaso, dois mundos se chocam. Não existe isso no espaço? O que impede de acontecer com a gente?
Já ia ficando claro, os dois cansados, a sucessão de suspiros longos e pesados, junto com o bater lento de pálpebras que mais pareciam querer cair.
As possibilidades talvez ainda existissem, enquanto os dois adormeciam juntos, às seis da manhã de qualquer sábado.

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