segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Pra Rebeca II

Rio, 26-10-1976

Oi Rebeca,
Já passou mais de uma semana que te escrevi, to explodindo de vontade de saber de ti, e nadica de nada de resposta tua. Vai ver a carta se perdeu no caminho aqui pro Rio, né?
Rebeca, sabia que vou começar a trabalhar já esta semana? É um trabalho do caralho, este! Vou ser fotógrafo de uma gravadora. A grana que é meio baixinha, mas to começando agora, né. Primeiro emprego fixo como fotógrafo, sabe como é, dureza. Mas é aí que vou poder aprender as coisas mesmo. Aí que vou poder fazer o que eu quero. Uau!
Ah, nêga, se você soubesse como é que eu to ansioso (e contente) em corresponder às expectativas do cara lá. Mas, sem me gabar, eu tenho condições.
Acho também que vou me mudar, isto é, a família toda: Inês, Soninha, Yedda e eu. Vamos sair daqui do Leblon, pra Santa Teresa. Acho que pro início do mês.
Aqui com o velho não dá mais pé, o ambiente não está legal. Por outro lado, não sei não. Só deixando passar o tempo pra ver, mas eu acho o Leblon cheio a pampa. Santa Teresa parece tão legal, lembra assim uma cidade pequena, com bondinho e tudo mais de antigo. É nostálgico, o bairro. Vamos ver no que isso tudo vai dar.
Rebeca, o quê cê acha d'eu te mandar uma foto da casa nova, quando eu me mudar pra valer? Talvez eu até te mande uma "surpresa" com meu salário.
Saudades.

PS: Hoje já é terça-feira, 27, e ainda não quis por a carta no correio. Um pouco por medo, um pouco por estar achando ela incompleta. Medo, sim, de não saber como ela vai ser recebida. É uma sensação bem pior que ficar na expectativa de uma resposta após uma entrevista pra um emprego. Pior porque você não é um emprego e emprego a gente procura em outro lugar se aquele não dá certo. Com as pessoas é diferente, é sempre mais complicado. Especialmente com uma pessoa em que a gente deposita uma certa dose de gostar, né?
O que eu achava incompleta é difícil e ao mesmo tempo muito simples de se escrever. É que toda vez eu formulo as frases na cabeça, mas quando saem, elas me soam como se fossem de alguma novela ou filme melodramático.
Ter o estilo, a fluência, a simplicidade de um escritor pra dizer objetivamente que o qu'eu sinto é saudade. SAUDADE, nada mais. Saudades: da tua voz, do riso fácil e barulhento, das tuas brincadeiras, teu jeito de andar, teus gestos, de conversar contigo, comentar qualquer coisa. Saudade do teu cabelo preto e do teu corpo miúdo, que já foi meu. Quisera fosse meu até agora e por muito mais tempo. Saudade do teu beijo delicado, com atua boca se abrindo só um pouquinho, assim como se fosse contar um segredo. Saudades até do teu mau-humor, nêga. Cê fica com uma cara gozadíssima, irritada.
Enfim, vê se não some e me responde, mesmo um postal.
Abração apertado, com gosto de mar e tudo.

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