domingo, 1 de dezembro de 2013

Pra Rebeca VI

Rio, 13-12-76

Oi Rebeca,
Como cê tá? Soube o que você está começando a sair por aí, fazendo amigos e se divertindo. E fico feliz por ti, que isso tudo faz bem pra alma. É sempre bom expandir os horizontes, ter novas experiências, poder ter contato com outras visões de mundo. Eu já nem sei mais qual é a minha. Às vezes eu penso que nem existo.
Rebeca, você já desejou ser outra pessoa? Não assim uma pessoa importante, como uma atriz ou cantora famosa, mas uma outra mulher qualquer, só pra não ser você mesma. Acordar tendo outra vida completamente diferente, com outras pessoas ao teu redor, com outro nome, família e emprego diferente, outra rotina, todo trocado... Eu já.
Nem sei mais quantas vezes eu fantasiei personagens pra mim mesmo, antes de dormir, na esperança de despertar e dar certo. Mas às vezes Deus ouve as nossas preces e a resposta é "não". Há de se aprender a ser quem é, quem quer que seja.
Sei que isso não faz muito sentido, mas ultimamente tenho pensado sobre isso e não ser mais o que faz sentido. Vai ver é esse o sentido das coisas: não ter sentido nenhum. A gente se aborrece, perde um tempo imenso, precioso, procurando significado, utilidade, tentando entender e compreender tudo. As pessoas sempre acham que tudo está ligado entre si, com uma relação clara de causa e efeito, quiçá que é preciso aprender com as coisas. Talvez não seja verdade. Talvez isso tudo seja só uma fórmula, um modo de viver que o homem criou pra si, achando que era melhor. Claro, todo sofrimento fica mais ameno se vier pra algo bom, se a lição for o sentido, a utilidade. Mas será que a gente só pode aprender na base do choro?
Eu queria que as coisas pudessem ser mais fáceis, sabe? E não é só pra mim não. Pra todo mundo. Mas parece que toda essa evolução que a humanidade tem, não serve pra nada, não significa porríssima nenhuma. Tudo o que a gente desenvolveu, criou, aprendeu até hoje, foi na intenção de facilitar a vida, economizar tempo, aproximar as pessoas... E como estamos hoje? A cada dia, com a rotina mais biruta, de um lado pro outro numa busca cega por não sei o quê, cada vez mais distantes uns dos outros, mais infelizes e solitários. É tudo parafernalha, tudo complicação que a gente mesmo inventa.
O ser humano não sabe, nunca soube e acho que nunca vai saber o que é melhor pra si. A intenção pode até ser boa, a teoria pode estar certa, mas a prática é uma catástrofe.
É por isso que a gente tem pai e mãe: pra poder culpar. Se a gente tem alguém contra quem se revoltar, perde o tempo brigando com essa pessoa e não vê o quão babaca está sendo.
O que me revolta mais, nêga, é saber que as coisas podiam ser tão mais simples, mais indolores... Já conversei com a Inês sobre isso, ela pensa como eu. As pessoas se sabotam o tempo todo, como se fossem seu próprio inimigo, segundo ela. Sempre se desviando das prioridades, se ocupando mais do que podem dar conta, só pra não conseguirem fazer aquilo que querem e serem vítimas de si mesmas. Eu concordo.
Ah, nêga, eu só queria respirar ar puro de vez em quando, ter mais espaço pra poder ser eu mesmo, ter paz. Mas eu sou sempre o fotógrafo, o filho, o neto, o homem da casa, o sei lá o quê. Acho que eu preciso de mais 30, só pra dar conta de mim... Ah, deixa pra lá.
Me conta mais dos teus novos amigos, como são, pra onde cê tem saído com eles, essas coisas. Fiquei curioso, imaginando as tuas novas "aventuras". Cheguei até mesmo a ter certos ciúmes, mas é coisa boba, como criança que não gosta de dividir a mãe com o irmão. Mas não tem escolha e com o tempo se acostuma.
Rebeca, tenho que terminar por agora. Já é tarde da noite e amanhã bem cedo eu vou levar Inês ao médico. Acho que é normal, da idade, mas ela diz que a visão já não é mais a mesma. Reclama na hora de ler o jornal ou um livro, de pegar um ônibus, diz que não gosta de pedir ajuda. Ela é parecida comigo até demais.
Beijo, nêga.

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