Tempos atrás, remexendo nas coisas antigas do meu pai, achei um monte de cartas (supostamente trocadas entre ele e algumas namoradas, durante a juventude). Li tudo, com a sensação de que por meio daquelas cartas eu fosse ficar sabendo mais sobre meu pai, como se elas fossem me fazer conhecer mais um pouquinho dele. E talvez tenham feito. Ou tenham me feito ver um pouco dele naquela época, em mim hoje.
Era quase possível ver alguém parecido com o meu pai - ou a figura que eu imagino que tenha sido o meu pai jovem, com seus vinte e poucos anos - lendo/escrevendo todas as cartas, vivenciando tudo o que estava dito nelas. As palavras falavam diretamente comigo. Não com as destinatárias, que eu nunca conheci.
E com essas cartas, criei um personagem só meu (que não é meu pai). Ele também escreve cartas pra uma menina que mora longe, mas num contexto próprio. Eu poderia gastar páginas e páginas falando sobre ele, mas prefiro deixar que ele fale por si mesmo, na primeira carta redigida desde que Rebeca viajou. (:
Era quase possível ver alguém parecido com o meu pai - ou a figura que eu imagino que tenha sido o meu pai jovem, com seus vinte e poucos anos - lendo/escrevendo todas as cartas, vivenciando tudo o que estava dito nelas. As palavras falavam diretamente comigo. Não com as destinatárias, que eu nunca conheci.
E com essas cartas, criei um personagem só meu (que não é meu pai). Ele também escreve cartas pra uma menina que mora longe, mas num contexto próprio. Eu poderia gastar páginas e páginas falando sobre ele, mas prefiro deixar que ele fale por si mesmo, na primeira carta redigida desde que Rebeca viajou. (:
Pra Rebeca
Rio, 16-10-1976
Oi Rebeca,
Como cê tá? Como cê tem passado?
Soube que cê tem estudado tanto que até parece cientista em projeto secreto da NASA. Não sai de casa nem pra ver se tá chovendo, comprar pão, essas coisas. Mas é issaí: vestibular é uma barrinha mesmo, tem que meter bronca. Ainda mais pra Medicina.
Tá na cara que eu não to escrevendo só pra dar força pr'ocê nas provas, né? Eu quero é saber de você, o que você tem passado, no que cê tem queimado os neurônios, o que tá sentindo... Afinal, a gente não pode mais se ver, né!
Cê nunca mais me mandou carta, postal... Telefonema, então, ish! faz tempo, viu. Eu fiquei com saudades. É, saudades. E também um pouco preocupado com você, com esse teu ritmo biruta de estudo.
Sabe o que é? É como um atleta: o cara se prepara pra uma competição, daí ele passa 2 meses (digamos) fazendo exercícios, ginásticas... Tudo pra pegar físico, fôlego e técnica, ajeitando os músculos e tudo o mais (psicologicamente também). Só que esse treinamento tá puxado demais, muito intenso, arriscando dobrar o fio.
Sabe o que é "dobrar o fio", nega? É o cara passar do ápice do rendimento antes da hora, porque o rendimento vai crescendo até um determinado momento e depois cai. Se cai antes do que devia, o atleta perde a competição, por mais bem preparado que esteja. Talvez até por isso: por se preparar demais. Se ao invés disso, o cara atinge um certo nível e depois cuida de manter a forma, sem aumentar em demasia a intensidade dos exercícios, é capaz de entrar na competição com força total e amplas possibilidades.
Basta dosar.
Assim é nos estudos também. Toma cuidado, meu bem. De qualquer maneira, confio em você. Mas acho que uma higiene mental às vezes é necessária. Levar o pensamento pr'outras áreas, desacelerar. Não há quem aguente esse teu 220 o ano inteiro. Assim você acaba sucumbindo, nega!
Rebeca, depois te escrevo mais. Agora tenho que ir dormir, pra ver se acordo cedo amanhã. To cheio de coisas pra te contar.
Beijo!
Soube que cê tem estudado tanto que até parece cientista em projeto secreto da NASA. Não sai de casa nem pra ver se tá chovendo, comprar pão, essas coisas. Mas é issaí: vestibular é uma barrinha mesmo, tem que meter bronca. Ainda mais pra Medicina.
Tá na cara que eu não to escrevendo só pra dar força pr'ocê nas provas, né? Eu quero é saber de você, o que você tem passado, no que cê tem queimado os neurônios, o que tá sentindo... Afinal, a gente não pode mais se ver, né!
Cê nunca mais me mandou carta, postal... Telefonema, então, ish! faz tempo, viu. Eu fiquei com saudades. É, saudades. E também um pouco preocupado com você, com esse teu ritmo biruta de estudo.
Sabe o que é? É como um atleta: o cara se prepara pra uma competição, daí ele passa 2 meses (digamos) fazendo exercícios, ginásticas... Tudo pra pegar físico, fôlego e técnica, ajeitando os músculos e tudo o mais (psicologicamente também). Só que esse treinamento tá puxado demais, muito intenso, arriscando dobrar o fio.
Sabe o que é "dobrar o fio", nega? É o cara passar do ápice do rendimento antes da hora, porque o rendimento vai crescendo até um determinado momento e depois cai. Se cai antes do que devia, o atleta perde a competição, por mais bem preparado que esteja. Talvez até por isso: por se preparar demais. Se ao invés disso, o cara atinge um certo nível e depois cuida de manter a forma, sem aumentar em demasia a intensidade dos exercícios, é capaz de entrar na competição com força total e amplas possibilidades.
Basta dosar.
Assim é nos estudos também. Toma cuidado, meu bem. De qualquer maneira, confio em você. Mas acho que uma higiene mental às vezes é necessária. Levar o pensamento pr'outras áreas, desacelerar. Não há quem aguente esse teu 220 o ano inteiro. Assim você acaba sucumbindo, nega!
Rebeca, depois te escrevo mais. Agora tenho que ir dormir, pra ver se acordo cedo amanhã. To cheio de coisas pra te contar.
Beijo!
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